Moçambique está a reforçar rapidamente a sua capacidade de produção de cimento e clínquer, num movimento que poderá reduzir a dependência de importações e transformar o país num fornecedor relevante para mercados da África Austral.
O avanço de novos investimentos industriais, incluindo projectos em Chibabava, Nacala e Nampula, está a alterar a estrutura do sector cimenteiro nacional. O principal destaque já não está apenas na capacidade de produzir cimento, mas também na expansão da produção local de clínquer, matéria-prima essencial para a indústria.
Nova fábrica de Chibabava reforça produção nacional
A Clay & Gravel Holding está a avançar com uma unidade integrada de produção de clínquer e cimento no distrito de Chibabava, província de Sofala.
De acordo com as informações divulgadas sobre o projecto, a fábrica deverá alcançar uma capacidade anual de aproximadamente 950 mil toneladas de clínquer e 1,2 milhões de toneladas de cimento.
O investimento ganha importância estratégica porque a unidade deverá produzir o próprio clínquer. Desta forma, poderá reduzir a necessidade de importar esta matéria-prima ou transportá-la de outras regiões do país.
Durante o lançamento do projecto, o Ministro da Economia, Basílio Muhate, destacou precisamente a possibilidade de redução das importações, poupança de divisas e fortalecimento da cadeia industrial nacional.
Energia também entra na estratégia industrial
O projecto de Chibabava deverá incorporar uma central fotovoltaica de 12 MW, além de um sistema destinado ao aproveitamento do calor residual da actividade industrial para geração de energia.
Esta componente assume particular importância porque a produção de cimento é intensiva no consumo energético. Quanto maior for a capacidade de reduzir custos de energia através de soluções próprias, maior poderá ser a competitividade da unidade no mercado nacional e regional.
Capacidade de cimento já supera procura estimada
Dados sectoriais citados pela West China Cement indicam que Moçambique já possuía, em 2024, aproximadamente 6,6 milhões de toneladas de capacidade nominal anual de produção de cimento.
A procura doméstica é estimada em aproximadamente 4 milhões de toneladas por ano.
À primeira vista, estes números poderiam indicar que o país já possui capacidade suficiente para responder integralmente ao consumo interno. Contudo, existe uma diferença importante entre capacidade instalada e produção efectiva.
Uma unidade industrial pode possuir capacidade elevada e operar abaixo desse potencial devido a limitações relacionadas com energia, matérias-primas, financiamento, manutenção, logística ou procura.
Clínquer continua no centro da transformação
Historicamente, uma das limitações do sector não esteve necessariamente na moagem do cimento, mas na disponibilidade de clínquer produzido dentro de Moçambique.
Durante vários anos, algumas unidades de produção dependeram de clínquer importado ou adquirido de produtores nacionais integrados.
É precisamente esta estrutura que os novos investimentos começam a transformar.
A unidade da Dugongo, próxima de Maputo, inaugurada em 2020, possui capacidade de aproximadamente 5.000 toneladas de clínquer por dia e cerca de 2 milhões de toneladas anuais de cimento, segundo dados citados pela West China Cement.
Nacala reforça produção no Norte
Uma nova linha de produção de clínquer em Nacala, com capacidade aproximada de 3.000 toneladas por dia, começou a alterar a disponibilidade desta matéria-prima no Norte do país em 2025.
Estimativas sectoriais associam esta capacidade a aproximadamente 1,3 milhões de toneladas anuais de cimento.
A modernização da unidade de Nacala terá igualmente elevado a capacidade de produção de cimento para cerca de 1,2 milhões de toneladas por ano, num investimento reportado em aproximadamente 110 milhões de dólares.
Com mais clínquer produzido localmente, uma parcela maior da cadeia de valor poderá permanecer dentro da economia moçambicana, reduzindo simultaneamente a necessidade de utilização de divisas para importação da matéria-prima.
Nampula poderá acrescentar mais 1,5 milhões de toneladas
A expansão deverá continuar. A West China Cement está também a desenvolver uma nova unidade integrada em Nampula, cuja entrada em funcionamento está projectada para 2027.
A fábrica deverá possuir capacidade de aproximadamente 3.500 toneladas diárias de clínquer, correspondente a uma capacidade estimada de cerca de 1,5 milhões de toneladas de cimento por ano.
Caso os projectos anunciados para Chibabava e Nampula avancem dentro das capacidades previstas, Moçambique poderá passar a dispor de uma estrutura industrial integrada mais distribuída entre o Sul, Centro e Norte.
Auto-suficiência poderá criar um novo desafio
O crescimento da produção traz, contudo, uma questão económica importante.
Se a procura doméstica permanecer próxima dos actuais quatro milhões de toneladas anuais enquanto novas fábricas entram em funcionamento, Moçambique poderá enfrentar um cenário de excedente de capacidade produtiva.
Isso significa que a discussão poderá deixar de estar concentrada apenas na capacidade de produzir cimento suficiente para o país e passar para a capacidade de encontrar mercados para a produção adicional.
Chibabava poderá acrescentar 1,2 milhões de toneladas anuais de cimento, enquanto Nampula poderá adicionar outras 1,5 milhões. Outros investimentos também têm sido considerados no sector, incluindo projectos em Cabo Delgado.
Neste cenário, o crescimento da construção nacional e as exportações tornar-se-ão fundamentais para assegurar níveis economicamente sustentáveis de utilização das fábricas.
Megaprojectos podem aumentar consumo de cimento
Existe, entretanto, potencial para crescimento da procura interna.
Moçambique possui importantes investimentos previstos ou em desenvolvimento nos sectores de energia, transportes, logística e infra-estruturas.
Projectos de LNG em Cabo Delgado, construção e reabilitação de estradas, caminhos-de-ferro, portos, habitação, escolas, hospitais e outras infra-estruturas podem aumentar significativamente a procura por materiais de construção.
A evolução dependerá, contudo, da velocidade com que esses investimentos forem executados e da relação entre o crescimento do consumo e a entrada das novas capacidades industriais.
Exportações regionais tornam-se estratégicas
Moçambique já possui experiência na exportação de cimento e clínquer. Entre os mercados mencionados encontram-se África do Sul, Eswatini, Malawi e Madagáscar.
Com o aumento da capacidade, o mercado regional poderá assumir uma importância ainda maior.
A localização geográfica das diferentes fábricas oferece possibilidades distintas. Maputo possui acesso aos mercados da África do Sul e Eswatini, enquanto Nacala apresenta vantagens logísticas para ligações ao Malawi e outros mercados do interior da região.
Sofala, por sua vez, está associada ao importante sistema logístico do Corredor da Beira, criando possibilidades de distribuição para o Centro do país e mercados regionais.
Chibabava pode reduzir custos de transporte
A localização da nova fábrica no Centro de Moçambique poderá igualmente diminuir a necessidade de transportar cimento por grandes distâncias a partir das regiões Sul ou Norte.
Este aspecto é particularmente importante numa indústria em que o transporte representa uma componente relevante do preço final.
O cimento possui peso elevado relativamente ao seu valor por tonelada. Consequentemente, uma fábrica competitiva na produção pode perder vantagem quando necessita transportar o produto por longas distâncias.
Ter capacidade industrial mais próxima dos mercados consumidores poderá, portanto, melhorar a eficiência da cadeia nacional.
SADC abre oportunidades, mas aumenta concorrência
A integração económica da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) oferece oportunidades para expansão das exportações.
A redução das barreiras comerciais dentro da região pode facilitar a circulação de produtos que cumpram as respectivas regras de origem e requisitos técnicos.
Ao mesmo tempo, a oportunidade regional não significa ausência de concorrência.
Países como África do Sul, Zâmbia, Zimbabwe e Tanzânia também possuem indústrias cimenteiras. Assim, os produtores instalados em Moçambique terão de competir em factores como preço, qualidade, disponibilidade, eficiência energética e custos logísticos.
Mercados regionais podem absorver excedentes
Alguns mercados da região continuam a recorrer a importações para complementar a produção interna, criando potenciais oportunidades comerciais para produtores moçambicanos.
A proximidade de Nacala ao Malawi, por exemplo, poderá favorecer exportações a partir do Norte, enquanto as unidades localizadas no Sul possuem vantagens geográficas relativamente à África do Sul e Eswatini.
Madagáscar apresenta outra possibilidade através do transporte marítimo.
Isso significa que provavelmente não existirá um único mercado regional para toda a produção moçambicana. Cada fábrica poderá desenvolver uma estratégia própria de exportação baseada na sua localização e nos respectivos custos de transporte.
Energia poderá determinar competitividade
A estratégia energética prevista para Chibabava poderá tornar-se uma das componentes mais importantes do projecto.
A utilização de energia solar e recuperação do calor residual poderá contribuir para reduzir os custos operacionais numa actividade caracterizada por elevado consumo de energia.
Esta vantagem torna-se especialmente relevante quando uma fábrica pretende competir fora do mercado doméstico.
Para exportar de forma sustentável, o preço de produção acrescido dos custos de transporte precisa continuar competitivo em relação às fábricas instaladas nos países de destino.
Novas fábricas podem estimular fornecedores nacionais
A expansão da indústria cimenteira também poderá gerar oportunidades para empresas que operam em actividades complementares.
A cadeia envolve mineração, transporte, logística, engenharia, manutenção industrial, fornecimento de equipamentos, segurança e vários outros serviços.
O Governo tem defendido que os novos investimentos privilegiem a utilização de mão-de-obra nacional, formação de profissionais moçambicanos e contratação de fornecedores locais.
Se esta integração acontecer de forma efectiva, o impacto económico dos investimentos poderá ultrapassar a produção directa de cimento e alcançar diferentes segmentos da economia.
Moçambique aproxima-se de uma nova fase industrial
A combinação entre a expansão de Nacala, o investimento de Chibabava e os projectos previstos para Nampula mostra que a indústria cimenteira moçambicana está a entrar numa nova fase.
O país poderá reduzir progressivamente a dependência de clínquer importado, aumentar a produção integrada e criar uma capacidade de oferta significativamente superior à procura actual.
O próximo desafio será transformar essa capacidade em produção economicamente sustentável.
Para isso, serão determinantes o crescimento da construção nacional, a execução dos grandes projectos de infra-estruturas, os custos energéticos, a eficiência logística e a capacidade das empresas de conquistar mercados regionais.
Se esses factores evoluírem favoravelmente, Moçambique poderá deixar de olhar para o cimento apenas como um produto necessário ao desenvolvimento interno e passar a tratá-lo como uma indústria com potencial de exportação e geração de divisas para a economia nacional.
